Núcleo de Segurança do Paciente
O Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) é uma instância obrigatória em todos os serviços de saúde brasileiros, conforme estabelecido pela Resolução RDC nº 36/2013 da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Trata-se de um setor estratégico responsável por promover, implementar e acompanhar ações voltadas à prevenção de danos aos pacientes durante toda a assistência à saúde
(CUNHA, 2025).
11/6/20258 min read


Núcleo de Segurança do Paciente: Guia Essencial para Hospitais
Núcleo de Segurança do Paciente: Guia Essencial para Hospitais
O que é o Núcleo de Segurança do Paciente (NSP)?
O Núcleo de Segurança do Paciente é uma instância obrigatória em todos os serviços de saúde que promove e apoia ações para prevenir danos aos pacientes, implementar protocolos de segurança e gerenciar riscos assistenciais. Instituído pela Lei brasileira (RDC nº 36/2013 da ANVISA e Portaria nº 529/2013 do Ministério da Saúde), o NSP tornou-se fundamental para qualidade hospitalar.
Por que criar um NSP?
Obrigatoriedade legal: Exigido em hospitais, maternidades, prontos-socorros e unidades de pronto atendimento;
Redução de eventos adversos: Hospitais com NSP estruturado reduzem significativamente complicações e danos evitáveis;
Melhoria da qualidade: Implementação de protocolos baseados em evidências científicas;
Satisfação de pacientes e profissionais: Ambiente mais seguro e confiável;
Requisito para acreditação: Essencial para certificação ONA (Organização Nacional de Acreditação).
Etapas para Criar um NSP
1. Decisão Institucional
Compromisso formal da alta direção;
Ato de nomeação publicado designando os membros;
Alocação de recursos (humanos, financeiros e tecnológicos).
2. Composição da Equipe Multiprofissional
Membros mínimos obrigatórios:
Enfermeiro (frequentemente coordenador);
Médico;
Farmacêutico.
Membros recomendados conforme perfil institucional:
Fisioterapeuta (prevenção de quedas);
Nutricionista (segurança nutricional);
Psicólogo (cultura de segurança);
Engenheiro clínico (gestão de equipamentos);
Profissional de TI (sistemas de notificação).
3. Estruturação do Núcleo
Estabelecimento de reuniões periódicas documentadas;
Elaboração de regimento interno;
Definição de fluxos de trabalho;
Articulação com outras comissões institucionais.
4. Documentação Obrigatória
Plano de Segurança do Paciente (PSP): Documento estratégico com políticas, processos e ações de gestão de riscos;
Política institucional de segurança do paciente: Diretrizes formais aprovadas;
Procedimentos Operacionais Padrão (POPs): Diretrizes para cada protocolo.
Seis Protocolos de Segurança do Paciente (Ministério da Saúde)
1. Identificação do Paciente
Pulseira com nome completo e data de nascimento/prontuário;
Verificação em todos os pontos de contato (admissão, cirurgia, exames, medicação).
2. Higiene das Mãos
Campanha permanente de adesão
Disponibilidade de sabão, papel-toalha e preparações alcoólicas
Monitoramento por categoria profissional.
3. Cirurgia Segura
Preenchimento completo do checklist da OMS;
Verificações em três momentos: antes da anestesia, antes da incisão, ao término.
4. Segurança na Prescrição e Administração de Medicamentos
Prescrições legíveis, completas, sem abreviaturas perigosas;
Dupla checagem de medicamentos potencialmente perigosos;
Monitoramento de reações adversas.
5. Prevenção de Quedas
Avaliação de risco na admissão com escala de Braden;
Identificação visual de pacientes de risco;
Medidas preventivas (grades, campainha ao alcance, camas baixas).
6. Prevenção de Lesões por Pressão
Avaliação com escala de Braden;
Mudanças de decúbito regulares;
Uso de colchões de redistribuição de pressão quando indicado.
Competências Principais do NSP
Gestão de Riscos: Identificação, análise e prevenção de vulnerabilidades assistenciais;
Articulação Multiprofissional: Integração de diferentes áreas para trabalho colaborativo;
Não Conformidades: Identificação e proposição de ações corretivas;
Plano de Segurança: Elaboração, implantação, divulgação e atualização;
Monitoramento: Acompanhamento de ações e indicadores;
Protocolos: Implantação dos seis protocolos básicos;
Barreiras de Segurança: Estabelecimento de mecanismos preventivos;
Capacitação: Educação permanente dos profissionais;
Análise de Eventos: Investigação de incidentes e eventos adversos;
Comunicação: Compartilhamento de resultados com equipes e direção;
Notificação: Envio de eventos adversos ao Sistema Nacional de Vigilância Sanitária;
Vigilância: Acompanhamento de alertas sanitários.
Atuação Diária dos Profissionais do NSP
Enfermeiro
Coordenação geral do NSP;
Auditorias periódicas nos setores;
Gestão do sistema de notificação de eventos adversos;
Treinamento de equipes;
Monitoramento de indicadores;
Investigação de incidentes com Protocolo de Londres.
Médico
Análise clínica de eventos adversos;
Revisão de casos complexos;
Elaboração e atualização de protocolos clínicos;
Educação médica continuada;
Interlocução com corpo clínico.
Farmacêutico
Segurança medicamentosa;
Validação de prescrições;
Gestão de medicamentos de alta vigilância;
Farmacovigilância;
Prevenção de erros de medicação.
Demais Profissionais
Fisioterapeuta: Prevenção de quedas, mobilização segura;
Nutricionista: Segurança de terapias nutricionais;
Psicólogo: Cultura de segurança, pesquisa de satisfação;
Engenheiro Clínico: Gestão de equipamentos, manutenção preventiva;
TI: Sistemas de notificação, painéis de indicadores.
Ferramentas de Gestão de Riscos
Ferramentas Prospectivas (Preventivas)
HFMEA (Healthcare Failure Mode and Effect Analysis): Identifica falhas potenciais antes de causarem danos.
Ferramentas Reativas (Análise de Eventos Ocorridos)
Protocolo de Londres: Investigação sistemática de eventos adversos com foco em causas sistêmicas.
Ferramentas de Melhoria Contínua
PDCA (Plan-Do-Check-Act): Ciclo de planejamento, execução, verificação e ação;
5W2H: Detalhamento de planos de ação (O quê, Por que, Onde, Quando, Quem, Como, Quanto custa).
Indicadores de Segurança do Paciente
O NSP deve monitorar regularmente:
Taxa de identificação correta dos pacientes;
Adesão à higienização das mãos por categoria profissional;
Taxa de preenchimento completo do checklist de cirurgia segura;
Taxa de eventos adversos medicamentosos;
Incidência de quedas (por 1.000 pacientes-dia);
Incidência de lesões por pressão;
Taxa de infecção relacionada à assistência à saúde;
Taxa de cobertura em treinamentos de segurança.
Pontos Críticos para Aprovação em Auditoria
Estrutura
✓ NSP formalmente instituído com ato de nomeação;
✓ Equipe multiprofissional (mínimo: médico, enfermeiro, farmacêutico);
✓ Reuniões periódicas documentadas em atas;
✓ Regimento interno elaborado.
Documentação
✓ Plano de Segurança do Paciente atualizado;
✓ Política institucional de segurança formal;
✓ POPs dos seis protocolos vigentes;
✓ Registros de treinamentos realizados.
Protocolos
✓ Seis protocolos básicos implantados e monitorados;
✓ 100% dos pacientes com identificação correta;
✓ Adesão mensurável aos protocolos;
✓ Checklists preenchidos completamente (especialmente cirurgia segura).
Gestão de Riscos
✓ Mapa de riscos assistenciais elaborado;
✓ Sistema de notificação funcionando;
✓ Eventos adversos analisados com metodologia apropriada;
✓ Ações corretivas implementadas.
Capacitação
✓ Programa anual de treinamentos em segurança;
✓ Cobertura de todas as categorias profissionais;
✓ Avaliação de aprendizado documentada.
Indicadores
✓ Sistema estruturado de monitoramento;
✓ Metas estabelecidas e comunicadas;
✓ Apresentação periódica de resultados;
✓ Evidências de melhoria ao longo do tempo.
Cultura
✓ Ambiente não punitivo que estimula notificação;
✓ Engajamento da alta direção;
✓ Comunicação efetiva entre setores;
✓ Participação dos profissionais.
Acreditação ONA
A Organização Nacional de Acreditação (ONA) estabelece três níveis progressivos:
Nível 1 (Acreditado): ≥70% de conformidade nos padrões de segurança;
Nível 2 (Acreditação Plena): ≥80% de conformidade com gestão integrada;
Nível 3 (Excelência): ≥90% de conformidade com inovação e benchmarks.
Instituições acreditadas demonstram reconhecimento externo de qualidade e segurança hospitalar.
Desafios e Estratégias de Sucesso
Desafios Comuns
Subnotificação de eventos por cultura punitiva;
Dificuldade na adesão aos protocolos;
Insuficiência de recursos;
Resistência organizacional à mudança.
Estratégias de Sucesso
Capacitação contínua da equipe NSP;
Cultura não punitiva com feedback construtivo;
Engajamento firme da alta direção;
Implementação de sistemas eletrônicos;
Rounds periódicos de segurança multiprofissional;
Integração com processos de acreditação.
Conclusão
O Núcleo de Segurança do Paciente é instrumento essencial para hospitais que buscam qualidade, segurança e confiabilidade. Estruturado adequadamente, com equipe multiprofissional capacitada, protocolos implantados e cultura de segurança consolidada, o NSP reduz danos evitáveis, melhora indicadores de qualidade e posiciona a instituição para acreditação e reconhecimento no mercado.
Investir em segurança do paciente é investir no futuro da instituição e no direito fundamental de todo paciente receber cuidado livre de danos.
Referências:
AGÊNCIA SUS. Manual de Metas de Segurança do Paciente. Disponível em: https://agenciasus.org.br/shared-files/16992/?MANUAL-DE-PROTOCOLOS-DE-METAS-DE-SEGURANCA-DO-PACIENTE.pdf. Acesso em: 6 nov. 2025.
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